segunda-feira, 7 de junho de 2021

Concordância de Hora & Questões Radicais


As opiniões contraditórias de Bonatus e Lilly

Compilado por Deborah Houlding

Tradução da versão inglesa por, Paulo Alexandre Silva

Este pequeno ensaio demonstra a contradição nas definições de ‘concordância de hora’ como explicado pelo astrólogo italiano do século XIII, Guido Bonatti, e pelo perito em horária do século XVII, William Lilly.

Em relação à concordância da hora planetária, o astrólogo de horária Inglês do século XVII William Lilly explica:

"Todos os antigos que escreveram sobre questões avisam o astrólogo que antes de dar o julgamento, deveria considerar se a figura é radical e capaz de julgamento. A questão será então considerada radical ou capaz de ser julgada, quando o regente da hora no momento da apresentação da questão, e do levantamento da figura, e o regente do ascendente ou da primeira casa são da mesma triplicidade, ou da mesma natureza".

Lilly então propõe uma demonstração, utilizando uma hora regida por Marte, para ilustrar o que ele quer dizer exatamente:

O regente da hora e o ascendente são da mesma triplicidade:

"Como, por exemplo: deixe o regente da hora ser Marte, deixe o signo de Escorpião, Caranguejo ou Peixes ascender, esta questão é então radical, porque Marte é o regente da hora e da triplicidade da água, ou dos signos Caranguejo, Escorpião ou Peixes".

De acordo com a técnica de Lilly, Marte é o principal regente da triplicidade da água, tanto de dia como de noite. Com as outras triplicidades, a regência modifica-se se o mapa for diurno ou noturno. Esta concordância só se aplica quando o planeta é o regente da triplicidade apropriada (para a triplicidade do fogo: o Sol num mapa diurno e Júpiter à noite).

Triplicidades - Humor - Regente Diurno - Regente Noturno

Fogo: Carneiro, Leão, Sagitário - Quente e Seco - Sol - Júpiter

Terra: Touro, Virgem, Capricórnio - Frio e Seco - Vênus - Lua

Ar: Gémeos, Balança, Aquário - Quente e Húmido - Saturno - Mercúrio

Água: Caranguejo, Escorpião, Peixes - Frio e Húmido - Marte Marte

O regente da hora é o regente do ascendente:

Marte concorda com Carneiro e Escorpião, porque rege ambos os signos.

O regente da hora possui a mesma natureza humoral que o ascendente:

Marte concorda com Carneiro, Leão e Sagitário, porque Marte é quente e seco em humor temporal, como são esses signos.

Planeta - Humor - Concorda com

Saturno - Frio e Seco - Terra

Júpiter - Quente e Húmido - Ar

Marte - Quente e Seco - Fogo

Sol - Quente e Seco - Fogo

Vênus - Frio e Húmido - Água

Mercúrio - Frio e Seco - Terra

Lua - Frio e Húmido - Água

Nota: estas qualidades estão algo simplificadas com a finalidade de clareza no entendimento. É mais correto pensar em Júpiter como ‘tépido e húmido’ em vez  de ‘quente  e húmido’, e Vénus como ‘fresca e húmida’ em vez de ‘fria e húmida’. Ambas, Vénus e Lua, embora geralmente classificadas como ‘frescas e húmidas’, são planetas temperados que se diz possuírem uma capacidade moderada de aquecimento. Nem o Sol  é  tão  destrutivamente quente e seco como é Marte. Mercúrio pode ser variável no seu humor, de acordo com a sua localização e relação para com outros planetas no mapa, mas inclina-se naturalmente para ser fresco e seco.

De acordo com a demonstração de Lilly, uma questão colocada na hora de Marte iria mostrar concordância de hora planetária para mapas que tenham Carneiro, Caranguejo, Leão, Escorpião, Sagitário ou Peixes no ascendente. Nunca seria possível encontrar concordância de hora planetária na hora de Marte quando Touro, Gémeos, Virgem, Balança, Capricórnio ou Aquário estão no ascendente.

A definição de Bonatti:

Muitas passagens na Astrologia Cristã exibem uma semelhança próxima aos capítulos dos textos do início do século XIII de Guido Bonatus, o qual Lilly reconheceu como uma das suas fontes. Mas note o que Bonatus tem para dizer sobre encontrar a concordância de hora planetária:

“A 143ª Consideração é que considere o modo de julgar, e através de que meios deve alcançar algum julgamento, para que possa examiná-lo e acertadamente analisá-lo, e de acordo com a forma que as estrelas lhe mostram a sua verdade a ser revelada. O método cuja consideração é esta, irá observá-lo de quatorze modos.

O primeiro modo é se o querente questiona devido a uma intenção ou não. Pois se o regente do ascendente e o regente da hora forem o mesmo, ou os signos nos quais estiverem os significadores anteriormente mencionados, forem da mesma triplicidade ou da mesma compleição, a questão irá ser proveniente de uma intenção. Se de facto assim não for, ou se o ascendente estiver no final de qualquer signo, a questão não irá ser proveniente de uma intenção, nem radical”.

Para esclarecer, as condições de acordo com Bonatus são:

O regente da hora é o regente do ascendente:

Isto é, Marte concorda com Carneiro e Escorpião.

O regente da hora e o regente do ascendente estão na mesma triplicidade:

Marte como regente da hora irá proporcionar concordância de hora planetária a qualquer signo no ascendente, sempre que ele e o regente do ascendente estejam ambos em signos da mesma triplicidade (fogo, ar, etc.). Por exemplo, Marte consegue encontrar concordância com Capricórnio a ascender quando Marte está em Escorpião e Saturno está em Peixes, pois o regente da hora e o regente do signo estão ambos em signos de água. Não existe nenhum signo que seja potencialmente incapaz de oferecer concordância planetária quando ascende numa hora regida por Marte.

O regente da hora e o ascendente concordam em compleição (humor):

 Isto é, Marte concorda com Carneiro e Escorpião.

Com a recente tradução do trabalho de Bonatti em inglês, somos capazes de esclarecer alguns dos princípios que são utilizados por Lilly. Contudo, nesta situação temos duas fontes tradicionais importantes que variam na sua descrição de uma das três condições pelas quais afirmam que a ‘concordância de hora’ é determinada. Não é claro se Lilly interpretou incorretamente a definição de Bonatti, ou se um ou ambos destes autores se referiam a outros textos que explicavam a concordância de triplicidades de forma diferente. Para responder a isso precisamos de localizar mais indícios provenientes de textos de horária anteriores que comentaram sobre este princípio. Por agora, eu pessoalmente aceito a concordância de hora se qualquer uma das qualificações apresentadas por Lilly ou Bonatus são reunidas. Isto aumenta o potencial de encontrar a concordância de hora planetária, mas na minha experiência um determinado relaxamento da regra como era previamente compreendida é necessário, para explicar os vários mapas que são claramente sinceros e radicais e que no entanto não revelam qualquer concordância de hora planetária. Se pretende considerar ambas como eu faço, as condições completas são como se segue:

  • O regente da hora é o regente do ascendente:

Isto é, o regente da hora rege o signo do ascendente.

  • O regente da hora e o regente do ascendente estão na mesma triplicidade:

Isto é, estão ambos em signos de ar, ou ambos em signos de fogo, etc.

  • O regente da hora e o ascendente são da mesma triplicidade:

Isto é, o regente da triplicidade concorda com os signos que rege de dia ou noite.

  • O regente da hora possui a mesma natureza humoral que o ascendente:

Isto é, planetas ‘quentes e secos’ concordam com signos ‘quentes e secos’, etc.

Por exemplo, os resultados para Marte e Vénus podem ser tabelados como se segue:

Hora      Concorda com:  Porquê?

Marte    Carneiro - Rege o signo e concorda em humor.

               Caranguejo - Rege a triplicidade.

               Leão - Concorda em humor.

               Escorpião - Rege o signo e a triplicidade.

               Sagitário - Concorda em humor.

               Peixes - Rege a triplicidade.

Qualquer ascendente quando o seu regente está na mesma triplicidade que Marte.

Hora      Concorda com:  Porquê?

Vênus    Touro - Rege o signo e a triplicidade de dia.

               Caranguejo - Concorda em humor.

               Virgem de dia - Rege a triplicidade.

               Balança - Rege o signo.

               Escorpião - Concorda em humor.

               Capricórnio de dia - Rege a triplicidade.

               Peixes - Concorda em humor.

Qualquer ascendente quando o seu regente está na mesma triplicidade que Vênus.


A Natividade de William Lilly


Sue Ward

Texto gentilmente cedido por Sue Ward
Traduzido por: Academia de Estudos Astrológicos

Durante muitos anos, a única cópia existente da natividade de William Lilly era a apresentada por John Gadbury na sua Collectio Geniturarum de 1662. Esta versão foi também usada no facsimile do livro Christian Astrology, publicado pela Regulus em 1985; uma vez que Gadbury odiava Lilly, parece estranho ter incluído este mapa no maior trabalho de Lilly. Sei que Olívia Barclay detestava a carta, mas ela queria que o facsimile fosse publicado e por isso não se opôs à sua inclusão. (Para que fique claro: foi ela quem deu início à recuperação da Tradição, ao permitir que se desmanchasse a sua cópia original do Christian Astrology para ser fotocopiada. Por muito que outros astrólogos de relevo tenham feito nesta área, mais tarde, ela foi a primeira, a mais ativa e a mais conhecida. Sei o porque estive lá, tendo sido uma das suas primeiras estudantes).

Cabe ao leitor decidir se importa ou não que a maioria dos astrólogos apenas conheça a versão “venenosa”, apresentada por Gadbury, do mapa de Lilly. Contudo, como sempre nos queixamos da falta de precisão dos dados, parece um pouco estranho ignorar o mapa que o próprio Lilly usava.

Este mapa já tinha sido publicado por mim no Astrological Association’s Journal, e apresentado numa palestra há pelo menos cinco anos, por isso não se pode dizer que tenha andado escondido.

Há diferenças importantes entre esta versão “autorizada” e a que foi publicada por Gadbury e pelo seu amigo Blackwell, especialmente no que diz respeito à posição da Lua e à de algumas cúspides. Como Lilly se deu ao trabalho de calcular algumas posições planetárias ao segundo, parece-me um pouco leviano dizer que as diferenças são pequenas e por isso triviais. Para quem não usa direções primárias como técnica preditiva em mapas natais, estas discrepâncias não têm grande significado, mas parece-me que seguir a Tradição e não usar as primárias é, de alguma forma, incoerente.

A carta aqui apresentada vem do MS Ashm. 394 (Manuscrito nº394 da Bodleian Library) e é referida pelo próprio Ashmole, como sendo uma cópia do mapa de Lilly. Esta é a carta correta, retificada e com as direções calculadas pelo próprio Lilly. Quem quer que deseje comentar sobre a vida de Lilly deveria ter como referência esta, e não outra qualquer cópia, a não ser por razões de comparação.

Dos manuscritos não publicados de Lilly:


Dos trabalhos publicados de Gadbury:




sexta-feira, 4 de junho de 2021

Os Fundamentos Clássicos da Antiscia & Contra-antiscia

Tradução da versão inglesa por,

Paulo Alexandre Silva, 

Roberta Ricciulli Leal

Um dos primeiros astrólogos que nos deixou um a demonstração detalhada de antiscia na prática foi o astrólogo romano Firmicus Maternus do 4º século, que dedicou várias páginas para a descrição dos seus e feitos no segundo livro do seu Matheseos Libri VIII. A técnica e a filosofia é evidentemente muito mais antiga e há boas razões para acreditar que foi introduzida numa fase muito anterior ao desenvolvimento do Zodíaco. Firmicus diz-nos que é Grega em sua origem e foi ensinada por Hipparchus no 2º século a.C. Referências às técnicas são encontradas nos textos astrológicos de Manilius, Ptolomeu, Dorotheus, Antiochus, Palchus, Paulus Alexandrinus, e muitos outros. A teoria subjacente à antiscia parece ter sido influenciada pela filosofia Pitagórica que reivindicou que toda a força no universo tem uma contra força de equilíbrio, a qual também coloca grande ênfase na importância simbólica dos números. Os Pitagóricos consideraram o número dez, o Decad, como o mais importante e perfeito de todos os números e as suas convicções eram que o universo consistia em dez esferas celestes. Junto com os sete planetas visíveis, a Terra e a esfera das estrelas fixas, os Pitagóricos mantiveram a presença d e uma ‘contra Terra’, um oposto paradoxal que equilibrou os movimentos da Terra e permaneceu invisivelmente localizado no lado oposto do Sol. Isto era conhecido como o 'antiscion' de anti-cthon que significa ‘terra oposta’. O termo Grego 'scia' significa sombra[5]. Em alguma data desconhecida a filosofia de ‘sombras opostas’ ou ‘graus refletivos’ estava incorporada na astrologia na convicção que cada grau do Zodíaco te m o seu próprio contra grau, refletindo a sua distância a partir do eixo do solstício no lado oposto do mapa. O eixo do solstício vai de 0° de Caranguejo a 0° de Capricórnio; assim, um planeta a 20° de Sagitário lançará o seu antiscion a 10° de Capricórnio, ambos os planetas estando a uma distância igual a partir do ponto do solstício do Sol a 0° de Capricórnio.

[5] Antiscia é plural; o singular é antiscion (grego) ou antiscium (latim).

Reflexos das Antiscia: imagine que o mapa está dobrado na metade ao longo do eixo do solstício – os planetas ligados pelas antiscia cairão um sobre o outro. Por exemplo, 15° de Caranguejo terá seu grau contrário a 15° de Gémeos; 3° de Touro o terá a 27° de Leão. Além das experiências comuns destes graus acima descritos, o relacionamento de dois planetas conectados desta forma recebem uma potência extra, pelo facto do seu ponto médio cair sobre um grau do solstício. 

Manilius descreve este esquema em Astronomica, onde declara que os signos que se opõem um ao outro no eixo do solstício são capazes de se “verem” um ao outro – sua terminologia derivou do fato de que ambos nascerão e se porão na mesma parte do horizonte. Entretanto, a descrição de Manilius difere da de Firmicus, porque ele usa o meio de Caranguejo e Capricórnio como seus pontos de referência, ligando o signo de Gémeos a Leão, Touro a Virgem, Carneiro a Balança, Peixes a Escorpião e Aquário a Sagitário. A explicação óbvia para esta mudança de referência é que o uso das antiscia como uma técnica astrológica tem uma história muito longa, tendo a sua origem no tempo em que os 15° de Carneiro marcava o Equinócio Vernal, e os graus do meio de Caranguejo e Capricórnio correspondiam aos solstícios. O esquema de Manilius é certamente o mesmo de Firmicus, porque ambos criaram uma associação entre os períodos iguais do nascer e pôr-do-sol. Manilius denomina-os de signos que se confrontam, e diz que eles apreciam um ‘princípio de semelhança’ porque o dia é nivelado com a noite em cada um.


O esquema como descrito por Manilius. Este eixo do solstício estava bastante desatualizado na sua época, revelando que Manilius o retirou de fontes muito mais antigas. 

Ptolomeu também descreve este esquema, onde ele diz que ‘os signos que se contemplam um ao outro’ são também signos de igual poder, desde que igualmente distantes dos trópicos. Ele explica que eles se ‘contemplam’ mutuamente em parte porque eles nascem e se põem na mesma parte do horizonte, e em parte porque: “…quando o Sol entra em qualquer um deles, os dias são iguais aos dias, as noites às noites, e a duração das suas próprias horas é a mesma”. 

Naturalmente, uma vez que os solstícios representam os pontos sobre a eclíptica onde o Sol alcança a máxima declinação Norte (a 0° de Caranguejo) e Sul (a 0° de Capricórnio), a sua declinação é paralela nos graus que são igualmente distantes em ambos os lados (veja o diagrama abaixo).


Declinação: A distância norte ou sul do equador de um planeta. 

Latitude Celestial: A distância norte ou sul da eclíptica de um planeta. 

A Eclíptica (trajeto do Sol) atravessa o equador a 0º de Carneiro e Balança, dando ao Sol 0º de declinação nestes pontos. 

Isto não significa, naturalmente, que dois planetas ligados entre si por um relacionamento de antiscion irão partilhar o mesmo grau de declinação, como só o ciclo solar é restringido à eclíptica não pode ter latitude. Contudo, alguns autores modernos têm admitido que Ptolomeu estava descrevendo nesta passagem um relacionamento dependente de dois planetas que têm o mesmo grau de declinação, e eles, dessa forma, usam o termo ‘antiscia’ para se referirem a isto. O que é bem diferente do conceito tradicional de antiscia. Muitos têm sido influenciados pelo verbete ‘antiscion’ de Nicholas de Vore, em sua Enciclopédia de Astrologia (1947), onde ele declara (incorretamente) que o reflexo ao longo do eixo do solstício é uma aplicação moderna, como a usada na ‘Astrologia Uraniana’, mas que a definição original por Ptolomeu “...é aplicada p ara dois planetas que têm a mesma declinação no m esmo lado do equador. Um na mesma declinação no lado oposto era designado um contra antiscion”. 

Aqui, De Vore interpretou Ptolomeu de modo incorreto, e referências a outros autores antigos varrem quaisquer dúvidas que o reflexo através do eixo do solstício é a base original e tradicional da técnica. Quando olhamos bem de perto o que Ptolomeu escreveu podemos ver que a afirmação de De Vore não é o ponto que Ptolomeu estava fazendo, em absoluto; nem Ptolomeu, na verdade, usou o termo antiscion, embora ele reconhecesse claramente que a relação dos signos que se ‘veem um ao outro’ era baseada em uma distância mútua do eixo do solstício. Firmicus, ao mover o ponto d e referência para o reflexo do antiscion de 15° dos signos tropicais para 0°, estava meramente corrigindo o erro que se tinha acumulado com o movimento do ponto vernal – um problema que a implantação do Zodíaco tropical erradicou. 

Firmicus escreveu a respeito das antiscia,

“Deste modo, Gémeos e Caranguejo enviam antiscia um ao outro. Pois um grau, qualquer que seja o grau de que recebe um antiscion, envia um antiscion para aquele grau. Assim Touro e Leão enviam um antiscion um contra o outro, assim Virgem e Carneiro, Balança e Peixes, Escorpião e Aquário, Sagitário e Capricórnio”. 

Firmicus prossegue para sugerir, que quando os planetas não se aspectam entre si, deveríamos considerar se eles estão unidos pela relação de antiscia: 

“…Pois, quando eles enviam um antiscion de uma tal forma que eles estão em aspecto através do antiscion, em trígono, quadratura, sextil ou oposição, eles auguram tal e qual como se estivessem assim colocados na disposição normal…”. 

Como prova da efetividade das antiscia, Firmicus oferece detalhes de um mapa no qual ele diz poder ser plenamente compreendido apenas por referência às suas influências. Sabendo que a identidade do homem por detrás do mapa é bem conhecida do seu patrono, ele o deixou anónimo no livro – um desafio por demais tentador para os estudantes clássicos que têm usado esses factos fornecidos em sua descrição para concluir que este era o mapa de Ceionius Rufius Albinus, um famoso escritor em lógica, geometria, história e poesia, e chefe de prefeitura da cidade de Roma de 30 de Dezembro de 335 d.C., até ser enviado para o exílio em 10 de Março de 337. Firmicus registou que o pai de Rufius Albinus, após duas funções sucessivas como cônsul, tornou-se um ‘exilado escandaloso’, o mesmo sucedeu ao seu filho pelo crime de adultério, embora mais tarde ele tenha regressado às suas funções. Ele argumenta que os detalhes da queda do pai de Rufius Albinus, o exílio, e as constantes conspirações contra ele apenas são revelados se voltarmos as nossas atenções para a teoria das antiscia.

Firmicus não fornece nenhuma posição dos graus, mas entre muitos dos pontos que ele faz em relação aos efeitos debilitantes das ligações das antiscia no mapa, ele a firma que a Lua está posicionada em Caranguejo, o Ascendente em Escorpião e Marte em Aquário. Apenas por aspecto não haveria nenhuma relação reconhecida entre a Lua e o Marte, por que seus signos estão inconjuntos. Contudo, o antiscion da Lua em Caranguejo cai em Gémeos, o qual aspecta Marte por trígono. O antiscion de Marte em Aquário cai em Escorpião, no Ascendente e, então, em trígono com a Lua. Firmicus viu este relacionamento entre Mar te e Lua como indicador de problemas e disputas:

“E assim a Lua Crescente, atacada por todos os lados pelas várias influências de Marte, tornou este homem, fisicamente enfraquecido, finalmente num exilado”.


Geralmente é dito que as antiscia expressam uma simpática relação, mas Firmicus demonstra que se elas se ligam a um planeta maléfico ou desafortunado, elas podem ser prejudiciais. 

Um método semelhante de averiguar familiaridade é considerar planetas igualmente colocados a partir dos equinócios. É dito que estes são de uma natureza semelhante, porque – nas palavras de Ptolomeu – “…eles ascendem em períodos de tempo iguais e estão em paralelos iguais”. Ptolomeu também diz a respeito destes, que os signos de Carneiro a Virgem são chamados Comandantes (porque o Sol torna o dia mais longo quando nestes signos), e os signos de Balança a Peixes são chamados Obedientes (porque quando o Sol se move através deles o dia é mais curto que a noite). Um planeta num signo comandante é assim considerado capaz de exercer um efeito dominante sobre o planeta na posição obediente. 

Manilius e outros autores antigos designaram tais signos de audentia ‘signos que se ouvem uns aos outros’. William Lilly refere-se a signos que são ‘comandantes e obedientes’ na página 92 da Astrologia Cristã, mas não fornece uma descrição dos seus significados. O astrólogo Grego Paulus Alexandrinus percebeu que os signos que se ‘ouvem uns aos outros’ se dispõem bem a uma fuga de fugitivos, para o exterior, e para acusações, sugerindo que há algum elemento de desarmonia atribuído ao seu significado. 

Pode parecer que esta técnica caiu em descrédito na tradição posterior, mas de facto ela nos dá as contra-antiscia, as quais Lilly nos diz para encontrarmos olhando simplesmente para o ponto oposto ao antiscion. Isto é correto porque o reflexo de um grau pelo eixo equinocial encontra-se oposto àquele que reflete ao longo do eixo tropical. O diagrama abaixo demonstra isso.


As linhas verticais mostram os ‘signos que ouvem uns aos outros’, e inseri no diagrama as posições da Lua e de Marte do exemplo de Firmicus, com as suas antiscia (A) marcadas em azul, e as contra-antiscia (CA) marcadas em vermelho. Note como as contra-antiscia, enquanto opostas às antiscia, também caem diretamente no relacionamento designado pela noção clássica de signos ‘audentia’.

Podemos ver novamente porque Nicholas de Vore e os subsequentes astrólogos modernos têm erroneamente definido as contra-antiscia como um relacionamento entre dois planetas “na mesma declinação no outro lado [do equador]” – é porque esta definição se aplicará ao Sol e à posição na qual estará quando atingir a sua própria posição de contra-antiscion; mas isto apenas se aplica ao Sol. As contra-antiscia associam planetas a uma distância igual dos equinócios, como por exemplo, 15º de Peixes corresponderá a 15º de Carneiro. Em tais pontos o Sol tem tanta declinação sul do equador a um ponto, como tem ao norte do equador a outro. Isso traz a similaridade dos tempos de ascensão que Ptolomeu considera relevante. Mas esta definição não é válida para os planetas, os quais, naturalmente, podem permanecer nos pontos das contra-antiscia, enquanto estão em níveis variados de declinação ou latitude celestial. 

Em astrologia tradicional, a conjunção por latitude celestial (a qual ocorre quando dois planetas estão no mesmo hemisfério e igualmente colocados a norte ou sul da eclíptica) é importante; mas não fazia parte da técnica de antiscia, e não deveria ser confundida com os modernos ‘paralelos de declinação’, que, ao contrário, são medidos a partir do equador. Para os antigos astrólogos, a direção e latitude de um planeta era muito significativa, usada para revelar muito a respeito da força e fortaleza de um planeta. A melhor posição planetária é estar no hemisfério norte, ascendendo em latitude; a pior no sul, descendendo. Esta consideração é especialmente relevante para a Lua, que é mais afortunada quando está no norte, ascendendo, e ao mesmo tempo aumentando em luz. 

O antiscion nos dá, ao invés, uma noção de ‘semelhança’ baseada na similaridade do grau do Zodíaco, relacionando os tempos de ascensão e igualdade dos dias e noites. A contra-antiscia é baseada e m um reflexo inverso porque os dias de um são refletidos pelas noites do outro. Com o antiscion, um fator mais imediatamente equivalente está envolvido; com o contra-antiscion é um princípio oposto, assim o relacionamento é mais difícil, ou antipático. Estes princípios filosóficos concordam com as apreciações de William Lilly

“…e tal como há antiscia, as quais sendo de bons planetas consideramos iguais a sextis ou trígonos, também há contra-antiscia, as quais consideramos como sendo da natureza de uma quadratura ou oposição”. 

Lilly não deixou nenhuma evidência do uso de aspectos de ou para as antiscia. Ou seja, ele usa as antiscia onde elas caem diretamente sobre um planeta ou cúspide de casa, mas não onde elas caem sobre o trígono ou quadratura de um planeta ou cúspide, como fez Firmicus. (Exceto a oposição, naturalmente, a qual revela o contra-antiscion). 

A partir das referências que encontramos em Astrologia Cristã, podemos ver que ele exigiu uma correspondência exata ou uma orbe muito próxima e tomou os contatos das antiscia com planetas favoráveis como um apoio, mas contatos com planetas impedidos como destrutivos, com os contatos de contra-antiscia a serem julgados menos úteis. Por exemplo, a conjunção da Lua com o antiscion do Regente do Ascendente é um fator promissor em assuntos de vida ou morte, mas a conjunção do regente do ascendente com o antiscion do Regente da oitava casa favorece a morte, como faz a conjunção do Sol com o antiscion de um planeta maligno.

Texto gentilmente cedido por Deborah Houlding

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